História

Em 20 de novembro de 1917, um grupo de portugueses entusiasmados com o então relativamente novo esporte que crescia rapidamente em Santos, o futebol, criou a Associação Atlética Portuguesa. Sua ata de fundação:

Asssociação Atlética Portuguesa

Aos vinte dias do mês de novembro de 1917, nesta cidade, às 20 horas realizou-se uma assembléia para a fundação do clube acima. Presentes os seguintes senhores: Avelino de Carvalho, Bento Ribeiro, Antonio Peixoto, José de Mello, Albino Marques, Serafim de Almeida, Maximino Campos, Manoel Ribeiro, Casemiro Leitão, Abel Rabello, Luiz Fernandes e Antonio de Almeida. Por proposta do sr. José de Mello, foi nomeado o nome do sr. Lino do Carmo para presidente, sendo aprovado. Por proposta do sr. Avelino de Carvalho, foi nomeado o sr. Bento Ribeiro para tesoureiro, sendo aprovado. Por proposta do sr. Avelino de Carvalho, foi nomeado o sr. Manoel Ribeiro para secretário, sendo aprovado. Por proposta do sr. Bento Ribeiro, foi nomeado o sr. Albino Marques para 2º tesoureiro, sendo aprovado. Por proposta do sr. Maximino Campos foi nomeado o sr. José Mello para vice-presidente, sendo aprovado. Por proposta do sr. Bento Ribeiro, o sr. Antonio Peixoto para 2º secretário, aprovado. Nada mais havendo a tratar foi encerrada a sessão às 21 horas. O presidente interino, Avelino de Carvalho; o secretário interino, Álvaro Marques.

Como sócios fundadores, figuravam: Avelino de Carvalho, Luís Fernandes, Joaquim Queiroz, Bento Ribeiro, Manoel Tavares, Antonio Ferreira Peixoto, Abel Rabelo, Antonio Queiroz, Francisco Martinho, Manoel Ribeiro, Domingos Moreira da Gama, Antonio da Costa Lima, Lino do Carmo, Álvaro Marques, Serafim de Almeida, José Augusto Caixote, José Fragoso, Francisco Amadeu Pinto, Luís de Souza, Constantino dos Santos, Manoel Jayme, Manoel Alves, Albino Marques, José de Almeida Mello, José Norberto, Alexandre A. Coelho, Luís Manoel, Maximinio Campos, Antonio de Almeida, Casimiro Leitão, Joaquim Ferreira, Manoel A. Garrido, Joaquim Simões, José Maria, Cezar Augusto Silva, Joaquim de Oliveira, Abílio Mathias Pereira, Manoel Gilo, José Cardoso, José Pais, Benjamim Dias, Augusto Gomes Pereira, Francisco Rosa, Alfredo Alves, Manoel Tavares, José Pereira Júnior, Manoel de Oliveira, Antonio Moreira da Gama, Luiz Antonio Machado e Joaquim Lopes Carrilho.

Já em 1920 o clube luso-santista se sagrava campeão ao disputar seu primeiro torneio oficial de futebol, o campeonato da segunda divisão da Associação Santista de Esportes Athléticos (Asea). No ano seguinte a essa vitória, o clube foi promovido à primeira divisão da Asea e ganhou oito campeonatos (1923, 1924, 1926, 1927, 1931, 1932, 1933 e 1934).

Em 1935, esse e outros clubes fundaram a Liga Paulista de Futebol, depois transformada em Federação Paulista de Futebol, e já no primeiro selecionado dessa liga a Portuguesa Santista forneceu cinco jogadores: Ratto, Tuffy, Argemiro, Armandinho e Tim (e só o primeiro deles não continuou, os demais foram titulares absolutos da seleção).

A arquibancada de cimento armado, que muitas décadas depois ainda constitui a parte nobre do Estádio Ulrico Mursa, teve seu início de construção em 1928. Na época, a obra foi muito criticada, por acharem alguns que era obra visionária. Mas, com o término dos trabalhos em 1932, a Portuguesa passou a ser o primeiro clube paulista a possuir uma praça de esportes com arquibancada de cimento armado, com cobertura.


De 16 de abril a 28 de maio de 1959, a Portuguesa fez vitoriosa excursão à África portuguesa, visitando Moçambique e Angola, de onde trouxe 11 taças de prata, 16 galhardetes e uma salva de prata, e prncipalmente a Fita Azul, por ter vencido as quinze partidas que disputou. O feito foi amplamente comemorado: Santos parou para recepcionar os jogadores que desfilaram em carros abertos pelas ruas centrais. Eram eles: Carlito, Perinho, Raul, Pixú, Jorge, Nicola, Gonçalo, Guilherme, Grillo, Valdo, Andu. O técnico: Filipo Nuñes.

Já em 1950 o clube tinha feito excursão a Portugal, onde venceu cinco dos sete jogos que disputou, marcando 17 gols e sofrendo apenas sete. Jogou em junho contra os times Sporting de Braga, FC Tirsense, F.C. Porto, Vitória de Guimarães, Acadêmica de Coimbra e Sporting de Lisboa, e em julho jogou contra o E.C. Marítimo, na Ilha da Madeira.

Outra importante excursão do clube foi em maio de 1965, após o retorno à Divisão Especial. Enfrentando o clima demasiadamente frio e problemas com vários atletas contundidos, a equipe da Portuguesa santista perdeu em Zilina e Ostrava, na Tchecoslováquia, perdeu do Bayern de Munique mas ganhou do T.S.V. Munchen-1860, perdeu do time de Stuttgart, ganhou do Fortuna de Dusseldorf (estes na Alemanha), e ganhou também do time de Enschede, na Holanda.

O clube, além do estádio dedicado à prática do futebol, que começou a ser construído em 1920, conta com instalações sociais, como um salão de festas. Em 1974, porém, dava a largada para um ambicioso programa de ampliação das instalações, destinado a transformar a sede em amplo complexo atlético. Segundo citavam os dirigentes do rubroverde então, "Nenhuma outra agremiação esportiva da cidade disporá de tantos recursos esportivos-sociais como aqueles idealizados para o novo conjunto".

Estavam então em início de obras: um conjunto aquático, com três piscinas e balneário; dois ginásios acoplados para prática de diversos esportes; ginásio de bochas, campo e mini-campo de futebol, play-grounds; quadras de tamboréu e tênis; a nova sede social, com restaurante, salão de festas, salas de projeção e conferências, teatro e biblioteca. 

Isso se tornou possível com o recebimento em comodato, pelo clube, de terreno contíguo ao Estádio Ulrico Mursa, com mais de 20 mil m², o que triplicou a área disponível. Junto com as obras novas, a diretoria se preocupou em realizar ampla reforma das instalações já existentes, destacando-se a nova cobertura do salão de festas, que tomou a forma de mini-ginásio, com maior área de ventilação.

Esse salão, que abrigou inúmeras promoções para o público interno e externo - Carnaval, festa do chope, bailes diversos e a Noite Portuguesa, que em 1974 previa a apresentação da Caravela da Saudade, programa de televisão comandado por Alberto Maria de Andrade, além do show-man Roberto Barreiros. 

Outras atividades sociais do clube, aproveitando os terrenos contíguos ao estádio, eram então espetáculos de rodeio e festas juninas; no campo de futebol também ocorreram várias missas campais e celebrações religiosas, chegada de Papai Noel de helicóptero, juramento à Bandeira dos novos recrutas do Exército etc.

Em 1974, o ex-presidente da Associação Atlética Portuguesa, Hermes Barsotti, escreveu este artigo para a revista comemorativa do aniversário desse clube:

Beristein, um craque como poucos

Hermes Barsotti (*)

Vega, Armandinho, Carabina, Guilherme e Beristein formaram uma irresistível linha de ataque que deixou saudades aos apreciadores do eletrizante futebol, que se praticava nos idos tempos de 1940/41.

Convém salientar entretanto que se todos praticavam um senhor futebol, uma figura marcou de forma indelével sua passagem pela A.A. Portuguesa e - por que não dizer? - no futebol brasileiro: Beristein.

Para mim, que acompanho o futebol de longa data, foi ele um dos mais completos extrema-esquerdas que vi atuar, convindo notar que em sua época havia outros extraordinários jogadores naquela posição.

Beristein firmou contrato com a A.A. Portuguesa acidentalmente - este é bem o termo - e pela argúcia esportiva do saudoso dinâmico presidente Alberto de Carvalho, como veremos adiante. Dirigia-se o atleta para a Europa, vindo da Argentina, sua terra natal, isto em meados de 1940, quando, ao atracar o vapor em Santos, desejou tomar contato com a bola e fazer exercícios físicos. A viagem prendia-se a um contrato que ele iria firmar com um dos mais categorizados clubes europeus.

Tendo lhe sido indicado o campo da Portuguesa, para lá se dirigiu Beristein. No Ulrico Mursa, assistindo o treino do clube estava Alberto de Carvalho, que repentinamente começou a ficar maravilhado com a forma com que Beristein aplicava suas fintas, batia faltas e dominava completamente a pelota, deixando seus companheiros de treinamento atônitos com o malabarismo incrível praticado pelo famoso craque argentino.

Alberto de Carvalho, com aquele seu linguajar irreverente, porém sincero e de homem autêntico que era (suas palavras ásperas eram ditadas mais pelo seu temperamento, pois era conhecedor profundo do nosso vernáculo, não tivesse sido ele um brilhante jornalista da época) chamou seus diretores de esportes e exclamou: "Contratem esse homem, custe o que custar, pois é um verdadeiro e portentoso craque".

Como o vapor saísse à noitinha, poucas horas tinha a diretoria para providenciar as demarches (que não foram poucas). A primeira providência de Alberto de Carvalho, e a principal, foi fazer o craque perder o vapor, permanecendo em Santos. Contando também com o valioso auxílio de um outro atleta da Portuguesa, também argentino, o lateral direito Baigorrya, conseguiu que o fenomenal craque firmasse contrato por um ano com a nossa Associação. O contrato terminou em meados de 1941, para grande desolação da torcida rubro-verde que tinha por Beristein verdadeira adoração.

Beristein tornou-se, na época, até atração na praia. Residindo na Pensão São João, localizada então na Avenida Vicente de Carvalho, quando fazia sua recreação na areia, com uma pequena bola de borracha - "pelota de goma", como ele dizia -, um elevado número de assistentes de ambos os sexos (mais feminino, é claro) ficava em torno dele, enquanto a turma ficava de boca aberta, pelo que ele conseguia fazer com tão pequena bola.

Beristein já havia se consagrado um verdadeiro craque na acepção da palavra, tanto na platéia santista como na paulistana (pena que não houvesse na época televisamento dos jogos), fosse torcedor de que clube fosse.

Uma das mais brilhantes atuações de Beristein foi na partida disputada pela Portuguesa contra o Corinthians e tenho a certeza de que os que tiveram a ventura de assistí-la ainda conservam viva a imagem dessa partida em suas retinas. Na partida contra o valoroso S.C. Corinthians Paulista - em memorável tarde, quando a Associação Atlética Portuguesa conseguiu vencer seu aguerrido e leal adversário pelo significativo escore de 5x2, tendo Beristein marcado nada menos do que 3 tentos, com mais um injustamente anulado pelo árbitro (consignado de forma magistral de bicicleta, a umas 30 jardas), o que lhe valeu a maior consagração prestada a um craque no tradicional Estádio Ulrico Mursa.

Tive a felicidade de ver tão famoso craque preso a contrato durante apenas 3 meses, sob a minha presidência, isto em meados de 1941, quando substituí o saudoso presidente Alberto de Carvalho. Beristein não renovou contrato porque teve que regressar à pátria, pois nesse ano a II Guerra Mundial recrudescia de violência e ele foi chamado por seus familiares, que o queriam junto deles. 

A diretoria, tendo que aceder diante dos motivos expostos, ofereceu-lhe um jantar na noite de sua partida de regresso à Argentina. Beristein, durante o jantar, afirmou que jamais se esqueceria de Santos e que se porventura um dia voltasse a jogar no Brasil, poderíamos estar certos que somente o faria na A.A. Portuguesa.

Em sua primeira edição, no dia 1º de julho de 1967, o jornal Cidade de Santos (grupo Folha de São Paulo - exemplar no acervo do historiador Waldir Rueda ), publicou esta matéria:

Só boa figura quer fazer a Portuguesa

No campo de Ulrico Mursa, onde há pouco tempo a torcida reuniu-se para uma festa delirante, o assunto agora é trabalhar. A festa foi para comemorar a volta à Especial, depois de uma decisão quase bélica contra o Ponte, em Campinas: o futebol do quadro praiano foi mais forte do que o desespero pontepretano e a guerra de sua gente. Aquele quadro vitorioso tinha alguns especialistas que foram embora. Alguns ficaram, outros vieram.

Eis a jovem Santista-67, sua força e suas ambições. O comandante desse resoluto regimento é o técnico Oto Vieira.

Sentado à margem do campo, Manuel da Silva Fernandes fala dos velhos

tempos e dos tempos de agora. O diretor do Futebol foi novamente convocado, era necessário para reorganizar a retaguarda. Com seu bonezinho azul-pálido que lhe dá ar juvenil, sapatilhas da msma cor, Maneco diz que comanda as coisas sem segredo:

"Trato os jogadores como filhos, este clugbe é minha segunda casa. Depois que a Portuguesa voltou à Especial, resolvi sair, tinha feito minha parte. Mas não deixaram, até fiquei contente, não conseguia esquecer esta vida".

Maneco defende as vendas de Adelson, Zico, Neiva e Rossi:

"O Adelson me pediu para sair, tinha boa oferta do América. É um bom moço, fez muito pelo time, tinha o direito de tratar da vida". Continua: "Combateram muito a venda do nosso meio-campo Neiva-Rossi. Eu acho que a transferência não prejudicou os interesses do clube: conseguimos um excelente jogador, o Santo, além de bom dinheiro. Até o campeonato teremos outra dupla afiada na armação".

Maneco tenta esconder o jogo, mas acaba admitindo o interesse pelo palmeirense Júlio Amaral:

"Com ele, a gente resolveria o problema. O diabo é que o professor Sandoli não quer ceder. Eu mesmo sou contrário à aquisição de jogadores por empréstimo e parece que o Júlio só pode vir nessa condição. Em todo o caso, vamos ver".

Para que o time alcance o ponto ideal - acha Maneco - é preciso conseguir com urgência dois jogadores para o apoio e um atacante que não tenha medo de entrar na área. "Esses três - diz o diretor - junto com os outros, resolverão qualquer parada".
Portuguesa santista nasceu na barbearia

"Vamos fundar um clube de futebol para representar a colônia aqui em Santos?" perguntou o português Lino do Carmo a alguns conterrâneos, reunidos naquela tarde num salão de barbeiro, o "salão do Alexandre", na Rua Dr. Manuel Carvalhal, hoje Joaquim Távora.

E não aconteceu outra coisa: imitando um grupo de jornaleiros descendentes de espanhóis, que havia fundado o Espanha (hoje Jabaquara) e seus compatriotas do Rio de Janeiro, que tinham o Vasco da Gama, os portugueses de Santos, no dia 20 de novembro de 1917, criaram a Associação Atlética Portuguesa. O nome deveria ser FC Portugal, era a vontade de um dos fundadores, Manuel Ribeiro, contra a de todos. No entanto, falaram mais alto Lino do Carmo, Antonio Peixoto e Albino Marques e acabaram vencendo a parada.

Quatorze, os primeiros - Quatorze homens fundaram a Portuguesa. Depois, subiu a 50 o número de pessoas que reivindicavam a primazia. Mas, na primeira reunião, no "salão do Alexandre", estavam somente Bento Ribeiro, Antonio Peixoto, Avelino de Carvalho, José de Mello, Albino Marques, Serafim de Almeida, Maximiano Campos, Manoel Ribeiro, Manoel Tavares, Casimiro Leitão, Abel Rabelo, Luís Fernandes, Antonio Almeida e Alexandre Coelho (N.E.: o dono da barbearia).

Na mesma semana, estava formada a primeira diretoria: Lino do Carmo, presidente; José Melo, vice-presidente; Bento Ribeiro, tesoureiro; Albino Marques, 2º tesoureiro, Manoel Ribeiro, 1º secretário e Antonio Peixoto, 2º secretário.

Jubileu de Ouro - Este é o ano do Jubileu de Ouro da Portuguesa santista. Como integrante da Divisão Especial, seus diretores não se esquecem a queda de 1954 para a Primeira Divisão e a volta, no ano seguinte. Outro rebaixamento em 1961, ano em que o Santos foi campeão. Novamente na Especial em 1964, após dramática partida em Campinas, frente à Ponte Preta.

Todos também se lembram das excursões pela África e Europa: mais vitórias que derrotas. Um grande feito - 15 vitórias consecutivas em gramados da África - é o maior orgulho da Portuguesa santista.

Dois jogos históricos - Duas partidas da Portuguesa entraram para sua história. A primeira, contra o Vasco da Gama em São Januário, quando estreou em partidas interestaduais. O Vasco era um time forte, formado por Valdemar; Lino e Italia; Brilhante, Nesi e Badu; Pascoal, Rainha, Claudionor, Teles e Santana. A Portuguesa entrou em campo certa de perder com Xisto; Alberto Augusto e Álvaro; Abelha, Felisberto e Costa, Bradino, Cruz, Gonzales, Otávio e Arnaldo.

Ninguém acreditava no marcador, depois que o juiz deu o jogo por terminado: 5 a 3, para a pequena lusa.

A outra partida é recente. O adversário desta vez não foi o Vasco, mas a Ponte Preta de Campinas. Ao vencedor estava reservado o reingresso na Divisão Especial do futebol paulista. Houve muita disputa. A "Macaca" não podia perder, o jogo era em Campinas. Mas, aos 6 minutos do segundo tempo, o ponta-de-lança Samarone recebeu de calcanhar do ponteiro-esquerdo Baba e acabou com a festa antecipada da Ponte Preta. Esse gol transformou a fisionomia da torcida, muitos brigaram, mas o marcador ficou no um a zero até o fim, para a Portuguesa santista começar vida nova na Divisão Especial.

No dia 23 de novembro de 1952, o jornal santista A Tribuna publicou:

ASSIM NASCEU UM CLUBE
Como foi fundada a A.A.Portuguesa

Alinharam-se 25 cadeiras, mas só compareceram 13 pessoas... - Num prédio, o de n. 344, da atual Rua Joaquim Távora – A abnegação sem limites de um punhado de idealistas – Da época das lutas ao período de ascensão – Valiosos depoimentos dos srs. Manoel Lopes Novo e Fortunato Dantas

Ali perto da pedreira do Contorno, no lugar chamado Jabaquara, existia um campo de futebol. E quase todas as tardes um bando de rapazes pertencentes ao Espanha F. Clube se entregava ao prazer de uma partida ou se aprimorava, para futuras lutas, em animados ensaios que se prolongavam até muito além da boca da noite.

Os que trabalhavam na pedreira, em sua maioria cidadãos portugueses, quando transitavam por ali perto do campo, não se fartavam de olhar aquela moçada, alegre e feliz, que se adestrava nas lides da pelota.

Um salão de barbeiro – Uma idéia, então, começou a tomar corpo dentro do cérebro dos que viam, com olhos compridos, aquele constante saltitar de bola no campo do Espanha F. Clube, que se estendia para os lados da "Casa Branca", onde faz ponto final, agora, o bonde da linha "16".

- "E que idéia é essa que vocês têm na cabeça?" - indagou, certa vez, o Alexandre Coelho, dono do salão de barbeiro que existia à Rua dr. Manoel Carvalhal (hoje Rua Joaquim Távora) n. 344.

Era ali no "salão do Alexandre" que se reunia, todo o anoitecer, um grande número de canteiros das Docas.

- "Que idéia é essa que vocês têm?" - tornou a perguntar o Alexandre Coelho.

- "Bem, a idéia é a formação de um clube. Um clube de futebol" - disse o Lino do Carmo.

- "Clube de futebol?" - indagou, espantado, suspendendo a raspagem da navalha no rosto do freguês, o Alexandre Coelho.

- "Sim, um clube de futebol!" - respondeu o Lino do Carmo.

E argumentou:

- "O Espanha já aí está há três anos formando entre os grêmios santistas. Em S. Paulo e no Rio cresce, cada vez mais, o futebol. E não se fundou em todo o Brasil, até agora, uma agremiação que faça recordar Portugal. Aqui em Santos há o Lusitano; no Rio, o Vasco da Gama, mas com uma denominação que lembre Portugal, nenhum!"

Lino do Carmo parou de falar. Fez-se então, um prolongado silêncio na barbearia do Coelho. Só se escutava o ruído das navalhas, cantando, com a sua voz de aço, a música da morte aos fios de barba...

Ali estavam, também, sentados nas cadeiras de espera, os que pensavam como o Lino do Carmo.

Quem quebrou o silêncio foi o Manoel Ribeiro. Achou que a idéia era excelente, e que se fundasse o Clube de Portugal.

- "Futebol Clube Portugal!" - lembraram outros.

Mas o Lino do Carmo, o Antonio Peixoto, o Albino Marques, explicaram que o nome do clube já havia sido combinado lá na pedreira:

- "Deveremos chamá-lo Associação Atlética Portuguesa. É um nome que calha melhor. Seria demasiado querermos usar o nome de Portugal. Associação Atlética fica muito bem. E diz tudo o que pretendemos: - uma 'associação' que seja 'atlética' e que tenha o nome da pátria 'portuguesa'".

- "Pois fundemos o clube!"

- "Onde?"

- "Aqui! Aqui mesmo!"

- "Quando?"

- "Já! Agora. Neste momento!"

Mas Lino do Carmo lembrou que faltavam alguns dos idealizadores. Ponderou que não seria justo que se concretizasse uma idéia na ausência de quem tanto a ajudara a ser levada avante.

- "Pois que seja amanhã!"

- "Combinado! Amanhã! Então, todos aqui, amanhã, às 8 horas da noite".

E o Alexandre Coelho ficou tão comovido com aquele acontecimento que se desenrolou em seu salão, que as suas mãos tremeram. E pela primeira vez em sua profissão de barbeiro, um freguês por ele servido teve que se utilizar do pó de arroz para fazer estancar o sangue de um corte surgido em seu queixo...

Mas o Alexandre Coelho nem se deu conta do corte que fizera, nem o freguês ligou importância ao acidente, porque para eles um fato de transcendental importância acabara de ser decidido: - a fundação, no dia seguinte, da A. A. Portuguesa.

20 de novembro de 1917 – O dia seguinte era 20 de novembro de 1917. Terça-feira. Contra seus hábitos, o Coelho fechou as portas das barbearia às 6 horas. E pôs-se a arrumar o salão. As cadeiras ele as retirou de junto da parede para o meio do estabelecimento. E foram ficando em fila, como nos teatros, como nos cinemas. Coelho contou as cadeiras: 15.

- "15 são poucas. Muito poucas. Precisamos 25, no mínimo".

E mandou vir bancos lá de dentro. Depois deu uma varridela em regra, passou um pano seco pelos espelhos, colocou frente às cadeiras a mesa das revistas sobre o estrado que ficava junto ao lavatório, e ia arrancar da parede umas gravuras velhas, amareladas pelo tempo, quando bateram à porta.

Era o Lino do Carmo que chegava. E os outros foram chegando também. Todos com roupa de domingo. Todos solenes. Todos compenetrados da grandiosidade do ato.

Soaram as 8 horas. Alexandre Coelho contou os presentes: - 9! E ele que esperava, no mínimo, 25!... Mas vieram chegando outros, os retardatários: 10, 11, 12...

Oito e meia. Fez-se nova verificação: 14.

- "Pois vamos dar início à reunião" - falou o Manoel Tavares.

Avelino de Carvalho tomou a direção dos trabalhos. E procedeu à chamada pelo livro de presença. Ali estavam os srs. Bento Ribeiro, Antonio Peixoto, Avelino de Carvalho, José de Melo, Albino Marques, Serafim de Almeida, Maximino Campos, Manoel Ribeiro, Manoel Tavares, Casimiro Leitão, Abel Rabelo, Luiz Fernandes, Antonio Almeida e Alexandre Coelho.

Ao todo, 14.

E às 8 horas e 45 minutos da noite, a 20 de novembro de 1917, no prédio que hoje ainda tem a mesma numeração de há 35 anos passados – 344 – era fundada nesta cidade a A. A. Portuguesa. Para presidente foi eleito Lino do Carmo.

Dois depoimentos valiosos – Os primeiros tempos da agremiação rubro-verde foram terrivelmente árduos. Muita luta foi preciso ter para levar adiante o ideal.

A Tribuna esteve em contato com duas pessoas perfeitamente autorizadas a relembrar a fundação da A. A. Portuguesa. São elas o sr. Manoel Lopes Novo, que foi o 2º. Presidente (1919), e Fortunato Dantas, benemérito, várias vezes campeão pelo referido clube.

Ambos puseram em destaque a tenacidade daquele pugilo de idealistas. O sr. Lopes Novo possuía um empório na Rua dr. Manoel Carvalhal, próximo à pedreira, e que era diariamente freqüentado pelos fundadores, ao passo que o sr. Fortunato Dantas com eles trabalhava na cantaria.

- "A idéia da fundação foi bem acolhida. Tanto que dos 14 que tomaram parte na reunião inicial o número de sócios considerados fundadores aumentou para 50. O preço da mensalidade era de 2 mil réis (dois cruzeiros) e não havia reunião em que não surgisse boa quantidade de propostas. Mas... e o campo?

"Aí é que estava o drama. O local escolhido foi esse mesmo em que hoje lá se encontra o campo. Mas havia muita pedra. E era preciso remove-la. Pois sabem o que faziam os idealizadores da Portuguesa? Mal acabavam o trabalho, trabalho rude, cansativo, na pedreira, ao invés de rumar para casa, em busca de um descanso reparador, caminhavam, corriam para o futuro campo, a remover aquele monte de pedras, a estourar dinamite que eles próprios compravam, sabe lá Deus com que sacrifício. E isso era todo o dia, chovesse ou fizesse sol. Até na hora do almoço, os minutos eram aproveitados. E aos domingos, lá estavam todos a trabalhar para o aperfeiçoamento do campo.

"Eram, todos, homens do trabalho. A maioria não sabia ler nem escrever. O tesoureiro, o Bento Ribeiro, homem corretíssimo, não sabia nem assinar o seu nome. Foi preciso mandar fazer um carimbo com o seu nome em letra de forma, para servir de assinatura. Mas é a essa gente, gente que colocou a alma, o coração, o espírito, o corpo, o devotamento, tudo, enfim, a serviço de um ideal, que a A. A. Portuguesa deve a sua fundação e o renome que conseguiu atingir no desporto paulista e brasileiro".

Primeiros passos – Manoel Lopes Novo e Fortunato Dantas descrevem o que foi a caminhada inicial da Portuguesa. Relembram a festa que se constituiu para todos, aquela manhã em que, justamente no local onde se encontra, agora, o portão principal, foi colocada uma tabuleta com o nome da A. A. Portuguesa. Muito verdasco (N.E.: vinho novo, verde e muito ácido) se bebeu, naquele domingo, por causa da tabuleta.

Depois veio a escolha do uniforme. Adotou-se as cores verde e vermelho. O sr. Afonso Baraçal propôs, e foi aprovado, que na blusa do goleiro fossem colocadas as armas portuguesas. O clube mandou fazer as camisas, mas como não havia dinheiro em caixa, os jogadores é que deveriam pagá-las, até que "a nossa associação o possa fazê-lo" - dizia uma carta explicativa a cada jogador. Mas pôde pagar logo.

O clube foi subindo. Os irmãos Pereira Carvalho – Alcino, David, Clidio e João – deram sua mão forte. O quadro associativo foi aumentando. A presidência do sr. Lopes Novo marcou-se por vários fatos de grande relevo, tais como fixação do clube em nova sede, à Rua do Rosário (João Pessoa) n. 27, a construção de uma arquibancada, a mais ampla e confortável da cidade, a bênção da primeira bandeira, de que foi madrinha a filha do sr. Serafim Marques, administrador da pedreira da Docas, e uma das figuras mais expressivas na fase inicial do clube.

Tudo isso em 1919. Depois, a equipe de futebol foi se tornando notável. Veio a presidência Manoel Mariano, também muito fecunda. Alberto de Carvalho começou a aparecer.

Surgiu o primeiro título – campeão da 2ª Divisão, em 1920 – com a conquista da taça, o primeiro troféu oficial, "A Leoneza". Colheu a Portuguesa a primeira braçada de glórias: - a conquista do título de campeão da cidade em 1923. E em 1924, nova e ruidosa obtenção do campeonato citadino, e desta vez, nos 1º, 2ºs e 3ºs quadros.

E eles concluíram assim - "Depois daqueles dois vistosos feitos, em 1923 e 1924, tudo passou a ser mais fácil. Tivemos grandes beneméritos. Contamos com a boa vontade do nosso quadro associativo. E o patrimônio agora aí está, como prova eloqüente de que a Associação Atlética Portuguesa pode e deve sr considerada como um dos grandes clubes desportivos de S. Paulo e do Brasil".

A semente e o fruto – Já vai longe, muito longe, aquele dia 20 de novembro de 1917, quando no velho salão e barbeiro um sonho, nascido junto a uma pedreira, passou a se transformar em realidade.

Tudo, então, era idealismo puro. Idealismo que gerava tão grande apego ao que se chamava, naquela época, de esportivismo, que a página n. 23 do 1º livro de atas das reuniões da A. A. Portuguesa lá está, no dia 16 de agosto de 1918,  suspensão imposta ao associado Vicente Morgado, por haver chutado a bola, durante o jogo, na barriga do goleiro Antonio Gomes, e 30 dias, também, ao sr. Antonio Gomes, por haver tomado a atitude de revidar a bolada na barriga com um par de sopapos.

Eram assim os idealistas de 20 de novembro de 1917. Hoje, o materialismo em que se chafurda o mundo, modificou um pouco o aspecto dos seres e das coisas. Mas a aspiração que foi atingida naquela noite, há 35 anos passados, e que fez tremer de emoção as mãos até então serenas do barbeiro Alexandre Coelho continua, sem dúvida, a ser o mesmo de sempre: - conduzir para o alto, para a frente, a A. A. Portuguesa!

UM DOCUMENTO RARO E PRECIOSO – A ata da fundação da A. A. Portuguesa, onde se lê: - "A Acta da 1.a Assemblea Geral da Fundação da Associação Athletica Portugueza – Aos 20 dias do mez de Novembro do anno de 1917, nesta cidade de Santos, às 8 horas da noite realizou-se uma Assemblea para a fundação do Club acima, presentes os seguintes senhores: Avelino de Carvalho, Bento Ribeiro, Antonio Peixoto, José de Mello, Albino Marques, Seraphim de Almeida, Maximinio Campos, Manoel Ribeiro, Manoel Tavares, Casemiro Leitão, Abel Rabello, Luiz Fernandes, Antinio de Almeida. - Por proposta do Snr. José de Mello foi nomeado o Snr. Lino do Carmo para Presidente, sendo approvado. Por proposta do Snr. Avelino de Carvalho foi nomeado o Snr. Bento Ribeiro para Thesoureiro, sendo approvado. Por proposta do Snr. Avelino de Carvalho foi nomeado o Snr. Manoel Ribeiro para Secretario, sendo approvado. Por proposta do Snr. Bento Ribeiro foi nomeado o Snr. Albino Marques para 2.o Thesoureiro, sendo approvado. Por proposta do Snr. Maximinio Campos foi nomeado o Snr. José de Mello para vice-presidente, sendo approvado. Por proposta do Snr. Bento Ribeiro o Snr. Antonio Peixoto para 2.o Secretario, approvado – Nada mais havendo a tratar foi encerrada a sessão às 21 horas. O Presidente interino, Avelino de Carvalho – O Secretario interino, Alvaro Marques."

(*) Hermes Barsotti assumiu a presidência do clube em 1941 no lugar de Egas Muniz de Moura, sendo reconduzido ao cargo em 1942, em 1959, em 1960 (junto com o dr. Arthur Alves de Amorim Jr.), além de ocupar diversos cargos em outras diretorias. Em 1974 era o segundo-secretário da diretoria presidida por José Augusto Alves.